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Nha fidjo matcho

Lá vai ele. Tão novo e com tantas responsabilidades. Os calções vão escorregando à medida que ele caminha e ele, de modo automático, puxa-os para cima com a mão esquerda porque com a mão direita vai conduzindo o seu carro de lata. Deixai-o viver a sua infância. Não haverá tempo para uma criança se tornar adulta? Mas, basta estarmos vivos para estarmos sujeitos à adversidade... Santiago regressava a casa depois de uma tarde com os amigos a jogar à bola. Também tinham feito um concurso de melhor carro de lata do mundo e o seu tinha ficado em segundo lugar. Ele sabia que para a próxima conseguiria o primeiro lugar porque ía pedir à mãe para comprar latas de azeite da marca X. É que essas latas tinham maior maleabilidade. Os planos já estavam todos feitos... E lá puxava ele os calções com a mão esquerda, enquanto a mão direita puxava o seu carro de lata, com uma carica como medalha de um honroso segundo lugar. Ao entrar em casa pela porta da cozinha, pronto para gritar a plenos pulmões qu...

Conversa à porta de casa

"Foi num dia igualzinho a este que nasceste. Estava este calor seco e não corria uma única brisa.", ía dizendo a avó enquanto Santiago se sentava perto dela, no mocho que tinha trazido da cozinha. O cão Pulgas, percebendo que o dono não estava para aventuras, deitou-se prazenteiramente aos pés de Santiago que lhe ía acariciando as longas orelhas castanhas. Era uma tarde de Domingo e Nha Maria e o neto estavam sentados à porta de casa, aproveitando a sombra que batia ali sempre por essa altura do dia. As pessoas que íam passando, paravam e cumprimentavam Nha Maria, perguntando-lhe pela saúde e família, acabando, invarialmente, a conversa dizendo: "Mas este é o seu neto? Cada vez mais parecido com o pai!". Nha Maria adorava contar estórias e Santiago era um excelente ouvinte, sempre de olhos arregalados, narinas dilatadas e de lábios entreabertos como se assim conseguisse absorver melhor todos os detalhes do que ela estava a contar. Mas ele não era o único ouvinte ...

A composição

Naquele dia, a professora sentia-se particularmente cansada e a turma estava irrequieta. Por isso, ela mandou que os alunos fizessem uma composição onde falassem sobre eles. Eis uma delas: "O meu nome é Santiago A.. Tenho 7 anos. Moro numa casa de cor verde com os meus pais mais a minha avó. A minha avó é a mãe do meu pai. Tenho um cão que se chama pulgas. Gosto muito do pulgas. O pulgas é pequeno, castanho e tem orelhas grandes. O pulgas gosta muito de brincar e eu gosto de brincar com ele. Mas, como diz a minha mãe, tenho de lavar sempre bem as mãos depois de brincar com o pulgas, principalmente se for comer. A minha avó faz doce de mancarra. Eu gosto muito de comer o doce de mancarra que a minha avó faz. E quando eu for grande, quero ser piloto-aviador porque quero conhecer o mundo inteiro. E é isto que eu quero dizer sobre mim." - Maggs - ________________ Em Cabo Verde chamamos mancarra ao amendoim.

Logo mais, temos cuscuz com mel

Estava na sala de aula há menos de dez minutos e a impaciência já o dominava por completo. Afasta ligeiramente a cadeira, os braços cruzados sobre a mesa e apoia o queixo nas mãos que repousam uma sobre a outra. Tenta prestar atenção ao que a professora diz mas o seu pensamento está electrizado e ele não consegue compreender o que ela está a falar, no seu característico tom sério e compenetrado. Volta a sentar-se direito e o olhar foge para o que se passa lá fora. As janelas grandes da sala de aula permitem-lhe ter uma panorâmica geral do jardim defronte da escola primária. A sua impaciência nada tem a ver com a possibilidade de poder estar lá fora a brincar. Receando que a professora o chamasse à atenção, prende novamente o olhar nela e percebe vagamente que ela está a falar de multiplicação e divisão. Olha para o tecto, pensando "isso já eu sei! que bem que a minha mãe me explicou isso". Estavam os dois sentados na mesa da cozinha e a mãe tinha ido buscar a lata onde coloca...

Podemos conversar?

Se eu ficar aqui, nesta esquina, ele não há-de escapar. Tem de passar por aqui a caminho de casa. E quando ele estiver a aproximar-se, vou para o meio do passeio, assim ele não terá hipóteses de pretender que não me viu. E farei isso com tamanha arte que não lhe darei tempo para mudar de passeio. Sim, esta esquina é o melhor sítio para apanhá-lo e ... e conversarmos. Não consigo continuar assim. E o melhor é falar claramente, pedir-lhe com consideração mas sem me humilhar. Também tenho a minha dignidade! Bem, então deixa-me pensar melhor como é que vou iniciar a conversa. Digo, 'olá. tudo bem?' ou 'há quanto tempo! o que tens feito?' mas assim já estou a querer saber muito. Vou ficar pelo 'olá. tudo bem?', dito de forma descontraída. Aí vem ele! O que faço agora? Se calhar é melhor eu tentar isto noutro dia. Sim, é melhor. Não, ele já me viu. Bem, então deixa-me aproximar-me e tentar parecer que estou aqui de forma casual. Sorrio, sei que foi de forma suplicante...