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Showing posts with the label Leão Tolstoy

Náufragos...

A minha imagem de tranquilidade, de sintonia com a existência humana e com a natureza é a de um ancião de cabelos e barba brancos, vestido de forma simples e com um boné a proteger-lhe os olhos do sol impedioso. Está sentado num mocho, por baixo de uma das janelas da sua casa de piso térreo e construída em pedra negra, com as mãos a repousarem nos joelhos. A casa está situada algures numa encosta no interior da ilha de Santiago. Com uma vida levada na esperança de boas chuvas e de um bom ano de colheita, nesse momento, ele sorri porque tudo à sua volta está verde. A natureza dar-lhe-á o que ele precisa e ele contempla-a extasiado. Ontem, fez um mês que cheguei aos Estados Unidos. Estou em Detroit há três semanas e comecei a trabalhar há uma. Com o meu regresso a Detroit, reencontrei o Said que já se interrogava sobre o meu paradeiro visto ter-lhe dito que regressaria em Janeiro e que lhe telefonaria para ele ir buscar-me ao aeroporto. Através dele, tenho conhecido outros árabes afric...

Infância

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O conto "A morte de Ivan Ilitch" foi publicado em 1886, contava Leão Tolstoy 58 anos. Ivan Ilitch, casado e com dois filhos, homem de Leis e com uma carreira irrepreensível na máquina do Estado, vê-se subitamente acometido de uma maleita que rapidamente toma conta do seu corpo, conduzindo-o à morte. Ivan, no seu monólogo interior e quase sempre acompanhado pela dor física lancilante, chega à conclusão que a sua vida tinha sido levada "... como se regularmente tivesse vindo a descer precipitadamente a encosta que julgava trepar!". "E Ivan Ilitch rememorou os minutos mais doces da sua existência. Porém, facto estranho, eles já não lhe pareciam tão felizes como dantes. Só a infância se salvava: só ela valeria a pena ser vivida se a vida regressasse. Ao mesmo tempo, Ivan Ilitch percebia que já não era o mesmo homem, que todas as suas recordações se referiam a outro, e não a ele". "Mal abordava o período que desembocara no seu estado actual, todas as alegr...

Guerra & Paz

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Sergei Bondarchuk realizou a " versão russa " de Guerra & Paz, em 1968. Em 1956, a " versão americana " tinha aparecido, sob a direcção de King Vidor. A versão russa acompanha-me sempre, tendo escrito " Valsa " com as imagens do filme a povoarem a minha imaginação. Esta obra cinematográfica tem a capacidade de colocar em tela os pensamentos de personagens fulcrais da obra, nada mais sendo do que as inquietações do próprio Leão Tolstoy. Aos catorze anos, vi as versões russa e americana na televisão portuguesa. De seguida, li a obra. Desde essa altura, já perdi a conta do número de vezes que reli Guerra & Paz. Quando vivi em Inglaterra, tive a oportunidade de comprar em VHS a versão russa. Como estes personagens estão aqui comigo tão presentes, sinto que quando estiver em Lisboa, vou ter de rever esta versão russa. Na versão americana, Peter Fonta faz de Pedro Bezukov. Mas, Pedro é um homem corpulento que não sabe o que há-de fazer com o seu corpo, c...

Valsa

Ao fundo, o som dos violinos. No salão, dançando Andrei e Natacha. Na varanda, sorrindo e sonhando Pedro Bezukov. No jardim, valsando e rindo é onde me encontrarão. - Maggs -

O Homem e a natureza

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Leão Tolstoy, em Yasnaya Polyana No dia em que o Nobel da Paz foi para as alterações climáticas "Centenas de milhar de seres humanos tentavam por todos os meios ao seu alcance destruir a terra em que viviam amontoados. Contudo, a despeito de se encarniçarem contra o solo - quer cobrindo-o de pedras para que nada germinasse, quer arrancando as ervas e derrubando as árvores, na ânsia de apagarem o mais pequeno sinal de vegetação, quer ainda escorraçando as aves e os outros animais e saturando a atmosfera com o fumo do carvão e do petróleo -, a Primavera nem mesmo na cidade deixava de impor os seus direitos. Com efeito, o Sol brilhava ardentemente, a erva voltava a crescer - tanto onde fora arrancada, como por entre as pedras das ruas -, os jardins cobriam-se de espessos tapetes de verdura, os vidoeiros, os álamos e as cerejeiras enchiam-se de folhas tenras e fragrantes, as tílias floresciam, as gralhas, os pardais e os pombos construíam alegremente os seus ninhos e as abelhas e as ...

Harmonia...

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""A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. O homem nada pode possuir enquanto temer a morte. Só quem não teme a morte é senhor de tudo. Se a dor não existisse, o homem não conheceria os seus limites, não se conheceria a si mesmo. Nada mais difícil", pensava ele, continuando a sonhar, "que cada um saber reunir na sua própria alma o significado de todas as coisas. Reunir tudo? Não, não é essa a palavra. Não é possível unir toda as ideias, mas, sim, pô-las de acordo !", repetia, com uma espécie de entusiasmo interior, como se sentisse que essas palavras, e só elas, exprimiam perfeitamente o que ele queria dizer, resolvendo a questão que o atormentava. "Sim, é preciso pô-las de acordo, é tempo de harmonizar as coisas." in Guerra & Paz ____________ Retrato do conde Leão Tolstoy - óleo sobre tela por Mikhail Nesterov.

No campo de batalha...

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"Que é isto? Vou cair? As pernas tremem-me?", disse de si para consigo, e caiu de costas. Reabriu os olhos na esperança de ver o resultado da luta dos franceses com o artilheiro e de saber se sim ou não este fora morto e se as peças tinham sido tomadas ou salvas. Mas nada mais viu. Por cima da sua cabeça nada mais havia além do céu, um céu muito alto, não claro, imensamente alto, onde erravam tranquilamente pequeninas nuvens cinzentas. "Que calma, que paz, que majestade!", pensava. "Não era assim aquando da nossa louca corrida, no meio dos gritos e da batalha; não era assim quando, o furor e o meto pintados no rosto, o francês e o nosso artilheiro disputavam entre si o taco da peça; então não havia, como agora, nuvens errantes neste céu profundo e infinito. Como é que eu nunca tinha visto isto, este céu sem limites? E que feliz me sinto de o ver finalmente. Sim, tudo é vaidade, tudo é mentira, à excepção deste céu sem fim. Não há nada, absolutamente nada, além...

Hadji Murád

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""Temos um provérbio," disse Hadji Murád ao intérprete, "o cão deu carne ao burro e o burro deu feno ao cão e os dois ficaram com fome," e sorriu. "Os seus próprios costumes parecem bons a cada nação."" Resposta do Hadji Murád, guerreiro tchetcheno, ao lhe perguntarem o que é que ele tinha achado do "baile em casa do Comandante [russo]?" Hadji Murád tinha desertado para o lado russo, em 1851, durante a guerra russo-caucasiana. Contudo, ao saber da ameaça de morte que paira sobre a sua família, ele pondera o regresso... mesmo sabendo que Shamil, líder religioso e político dos muçulmanos na Tchetchenia, o tentaria matar. Na sua luta interna, ele relembra a seguinte fábula: "... um falcão foi capturado e viveu entre os homens, tendo depois regressado para os da sua espécie nos montes. Ele regressou, mas usava correias com sinos; e os falcões recusaram-se a recebê-lo. "Voa de volta para onde penduram esses sinos de prata!". ...

Guerra & Paz

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Leão Tolstoy, por Ivan Kramskoy "Nada foi inventado. Apenas podemos saber que não sabemos nada. E este é o mais alto grau da sabedoria humana." in Guerra & Paz